"Querida, você tem um coração na garganta"
Minha avó

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Dança Sueca (Capítulo 1 - Ádvena)





Não sei bem por quê, mas não conseguia pensar em nada além daquelas frases sobre Robert Schumann ditas por seu amigo ao se referir à loucura. Angel estava à minha frente, reclamava da lei nº 13.451, que acabava de entrar em vigor, recusava-se a apagar o cigarro. Um sopro longo. O ar descarnado daquelas palavras, que não me saíam da cabeça. “Ele ouvia as vozes dos anjos e anotava suas músicas. Mas logo os anjos se transformaram em demônios.” Era o que não me saía da cabeça. A observação do amigo é conhecida, também a loucura que assombrou Schumann por tanto tempo. Via-a em Angel, tanto a observação quanto a loucura. Imaginei seu reflexo no Rio Reno, Caronte o único barqueiro. Quase disse em voz alta, mas entendi que o que dissesse não apagaria o cigarro ou a lei, tampouco aquela tarde em que nos encontrávamos pela última vez. Loucura seria a minha interromper Angel com palavras sobre suicídio. Não havia lógica em justificar um encontro marcado daquela forma com um comentário sobre Schumann. Tossi no lugar. Notei o cinza recortado pelos prédios, do lado de fora do café onde estávamos, em frente ao Estadão. Nosso último encontro esquecido em uma tarde cinza, em um café em frente ao Estadão. Angel com seu novo namorado, eu com Cohen.Não fazia ideia que aquela era a última vez que a via, talvez por isso não me preocupei em memorizar suas palavras, a maneira como soprava a fumaça enquanto reclamava, o coque que fazia com o próprio cabelo e o cigarro entre os dedos, muito próximo de um incêndio.Quase nada guardei daquela tarde, exceto o silêncio de Cohen e as malditas frases. Temperavam a angústia de Angel, mal disfarçada nas repetitivas reclamações e coques improvisados, sempre prestes a desabar. Muito provável que além do coque, eu estivesse perto de desmoronar. A lembrança de titia sumia e retornava, mais forte, mais violenta.Tentava redesenhar mentalmente seu rosto, mas alcançava, no lugar, uma figura sem contorno. A certa altura corri para o banheiro e vomitei o café e a tristeza de Angel, no esforço inútil de esquecer que havia sido minha tia quem me apresentara sua então aluna de piano.De volta à mesa, retomei a reclamação sobre a lei número 13.541. Por um bom tempo nos concentramos todos nas contrariedades que o cigarro já apagado causava. Decerto eu buscasse em desespero alguma outra conversa ou frases que me desviassem do real motivo pelo qual estávamos naquele café. Decerto também eu parecesse ouvir outras vozes, da última vez que vi Angel.

FILIPA MARIA

Havia quase meia hora que Filipa Maria continuava de pé agarrada a um saco plástico, encarando uma jovem que subia e descia um peso de cinco quilos em frente ao espelho. Filipa olhava para a moça, quem, por sua vez, examinava a própria imagem refletida. Fazia uma careta e emitia um ruído quando levantava o peso, sob o olhar da outra e dela ao reflexo no espelho. Às vezes contava baixinho até trinta, bebia da garrafa transparente um gole d’água, àquela altura já saliva e suor, e voltava à careta e ao desconforto pelo peso aliado à vigilância daquela que ainda estava imobilizada com o saco plástico junto ao corpo.

“Você quer usar o peso?”, por fim soltou, além do ruído.

Filipa não disse nada. Sacudiu a mão, em sinal para que continuasse, que estava bem — parada por quase meia hora, sem quase mexer os músculos da face. Em sinal que qualquer esforço físico atrofiava o cérebro, ali, em uma academia de ginástica. Seu braço mole movimentava-se inteiro com a mão, mas estava bem. Agarrada ao saco, arriscou alguns passos em direção à moça e aos pesos de cinco quilos.

“Gosta de música clássica?”, sua voz era fraca, mantinha o corpo firme para que saísse algum som. A música alta da academia abafava o que tentava dizer.

“Não entendi.”

“Gosta de música clássica?”

A moça enxugou uma gota de suor equilibrada na ponta do nariz, algo naquela mulher a atraía. Notou que no saco havia papéis com muitas listas de nomes e títulos em alemão.

“O que tem aí nesse saco?”

Filipa se encurvou sobre o saco de onde catou uma folha com uma grande lista. “Gosta de música clássica? Conhece Mozart?”

Com o rosto menos melado, a outra bufou. Não era tão ignorante quanto impunha sua postura ante um espelho, subindo e descendo um peso. Gostava de música clássica, aprendera a gostar de Max Bruch na infância, com o pai. Aos sábados, seu pai sentava-se em uma poltrona na sala, próximo à janela, enquanto ouvia o Concerto para Violino em Sol Menor. Não raro, chorava. Ela nunca soube por que chorava, mas, desde então, passara a achar o concerto triste. Bem verdade, passara a achar música clássica triste ao ver o pai, nas manhãs de sábado, de olhos e mãos fechados, prontos a agarrar alguma beleza daqueles dias, deixando que uma ou outra lágrima escapasse. Aquilo era beleza para aquela menina, o oposto de felicidade. “Conheço Max Bruch, serve?”, o que conseguiu dizer.

“Max Bruch? Então está em um estágio mais avançado”, voltou o papel ao saco e puxou outro, com Max Bruch entre os nomes da lista. O indicador grosso, com a unha vermelha descascada, apontava para os nomes. “Veja, os contemporâneos de Max Bruch. Brahms e Buckner. Anton Bruckner nasceu catorze anos antes de Bruch. Apesar da sinfonia número sete ser a mais famosa, eu listo aqui seu Réquiem em Ré Menor, um dos mais bonitos. Provavelmente conhece os Réquiens de Mozart.”

“Sim, conheço.”

“E de Verdi?”

“Você é musicista?”, ela não queria se prolongar na conversa, tinha outras séries a cumprir, além da esteira, onde suaria mais e por lá largaria seu corpo pesado. Mas aumentava a curiosidade sobre aquela mulher.

“Não. Sou apenas diletante”, Filipa tinha horror à palavra diletante, o que não a impedia de dizer lenta “diletante”, como para justificar-se em uma sala de musculação, alerta na educação daqueles que olhavam todos para a mesma direção, o espelho. Estendeu o braço, as unhas descascadas à vista. “Meu nome é Filipa Maria, prazer.”

“Prazer, eu sou Angel. Você me desculpa, mas tenho que voltar aos exercícios.”

“Tome, pra você”, entregou o papel com a lista de compositores e composições da segunda metade do século dezenove. “Não esqueça de pesquisar em casa.”

“Pode deixar, obrigada”, dobrou a lista e correu para a esteira, queria terminar aquele dia.

Filipa Maria também queria encerrar logo aquela tarde, esperançosa que pelo menos alguém daquele lugar passasse a compreender um pouco sobre música clássica. Não da maneira como ela apreendia, certamente. O corpo seria outro, sem pele, uma mancha permanente na partitura. Mas, se pelo menos se rendesse a uma frase de Beethoven, já era um começo. Para Filipa, a educação somente teria efeito se iniciada pelos sentidos.

Na saída, reencontrou aquela que gostava de Max Bruch. Cabelos curtos bem pretos, olhos puxados. Fumava em frente à porta.

“Depois de se exercitar, você fuma?”

Ela deu de ombros. “Quer sair? Beber alguma coisa?”, teceu, enfim, o convite para uma amizade crescente entre uma professora de piano e sua futura aluna.

Convite pelo qual minha tia Filipa Maria conheceria Angel mais até do que eu.

Margearam a avenida Angélica. Algumas árvores no caminho. Cruzaram a avenida São João. Encontraram, finalmente, a padaria a que Angel sempre ia após o corpo correr parado, meio quilo a menos de suor. O lugar recendia a pão fresco. Com comanda na mão, sentaram-se à mesa reservada para fumantes. Pediram cerveja, a retornarem aos dois quilos a mais cada uma.

Garrafa de 600 ml, dois copos cheios e um brinde. Angel catou na bolsa maço e isqueiro e acendeu um cigarro.

“Sempre te saco na academia, todo mundo te chama de esquisita, fica lá, rodeando os outros. Quer saber da música clássica”, soprou a fumaça. “Já até foram reclamar na recepção. Eu não me incomodo, acho graça.”

Minha tia quis dizer a ela da música, da desconexão entre os anjos e demônios de Schumann e a vulgaridade de quase todo mundo, mas tomou outro gole de cerveja. Talvez porque estivesse encantada pelo paradoxo que era Angel, alguém que fumava e bebia com a mesma intensidade que se dedicava a pesos, anilhas e esteiras.

Conversaram noite adentro. Descobriram mais semelhanças do que estranhezas. Nenhuma das duas acreditava na felicidade. Ambas eram estrangeiras na própria família. Angel, porque filha de um búlgaro com uma manauara. Titia, porque sempre foi diferente. Contou para a nova amiga que também dava aulas de piano, no que a outra não acreditou muito. As unhas vermelhas descascadas à mostra, enquanto Angel acendia outro cigarro.

“Não tem mãos de pianista.”

“Não tenho mãos de madame.”

As duas riram.

Titia gostava de palavras e ensinou uma nova a Angel: “ádvena”. A outra agarrou fascinada o novo verbete, que repetiu para si por quase todo o tempo que permaneceu ali, com a cerveja, os cigarros e as unhas vermelhas descascadas de Filipa Maria. Soltava com a fumaça cada sílaba, sem pressa, quase uma oração com as letras de uma só palavra: ádvena.

quinta-feira, 30 de março de 2017

DEZ ANOS DE PALIMPSESTO

Exatamente hoje, meu blog completa dez anos. Palimpsesto é resultado de uma inquietação minha: existe texto original? Ao longo dos dez anos, fiz algumas raspadinhas, quando leio outros autores nos autores que leio de fato.
Continuo inquieta, com mais dúvidas do que respostas. Talvez meu pensamento seja um grande palimpsesto, penso eu.
Tenho entrado aqui raramente, sinal dos tempos, postagem substituída por poucos caracteres do twitter ou figuras ininteligíveis do Facebook. Mas mantenho o carinho pelo blog. Dos sonhos que larguei por aqui, no universo cor-de-rosa, silenciosa, sem leitores, apenas eu e o teclado.
Comemoro solitária dez anos inacabados sem champanhe, mas com alguma ilusão.
Ainda vendo futuro e uma gama completa de felicidade.





P.S.: Por coincidência, uma das minhas escritoras favoritas, Elvira Vigna, publicou recentemente um livro chamado Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas, em que a estrutura da narrativa se assemelha a um palimpsesto, pelas histórias de João (não sei por quê, me lembrou o Apocalipse, daquele João que viu e ouviu, daquela prostitua devorada pelos dez reis)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

FAMÍLIA FELIZ: SORRISO DE FOTOGRAFIA

Entre a sala e o corredor existia um espaço desabitado. A janela se encerrava nos buracos antes ocupados por pregos. A porta era aberta pelo lado esquerdo, um sinal nada auspicioso pela família. Sim, chamávamo-nos de família quando ainda nos esquentávamos na palavra amor. Inutilizamos o espaço entre a sala e o corredor após entendermos que nunca conseguiríamos construir um lavabo ali, o sonho de Charles desde quando nos casamos. Assim também inutilizamos a palavra amor, quando percebemos que nunca conseguiríamos construir nada com uma palavra apenas.
Mas aquele espaço continuou lá, a metade de um lavabo, entre a sala e o corredor. Não quisemos destruí-lo, tampouco continuá-lo. Talvez isso também seja família, algo que, do desejo, se mostre irrealizável, mas que, justamente por nascer do desejo, nos negamos a destruí-lo, menos ainda a continuá-lo.
A minha família, pelo menos, nasceu assim. Lembro-me que, do primeiro parto, não queria que nascesse. Um filho, um nome. Uma mãe. Sem nome. Na época, Charles ainda estava empenhado em construir o banheiro para os visitantes, hóspedes ou mensagens mal-carregadas.
Estava obcecado. Queria algo entre luxuoso e simples. Chegou a pregar alguns quadros na parede. Flores em vasos, traços abstratos entre outras pinceladas. Sempre que eu via as pinturas, pensava na visita sentada na latrina, sob cores quentes e frias, concentrada no que nos deixaria, de fato, como recordação. Durou alguns anos a que ele se convencesse da impossibilidade dos quadros ali. Tempo a se interromper a construção do banheiro por mais de cinco vezes.     
A obsessão de Charles perdurou a minha segunda gravidez. Enjoava mais, me aguentava menos, mas persistíamos, tijolo por tijolo, na construção de algo entre o simples e o luxuoso. Franja colada na testa, corpo inclinado sobre os azulejos, a respiração quente de Charles, uma insistência perversa do movimento lento das mãos. Quando se deitou na cama naquela noite, eu já adivinhava. Havia desistido. Não quis se estender, apenas me disse que não aguentava mais e virou de lado. Eu, com o bebê e quase sem leite, pisquei em retribuição. Também não aguentava mais.


                                                     ******

Os filhos cresciam de repente. Filhos crescem de repente. Amava e odiava, pouco me reconhecia nas horas de olhos abertos e cabeça em outro mundo. Também me culpava por amar e odiar com a cabeça em outro mundo. Até que, quase sem conseguir respirar, redescobri aquele espaço. A metade de um lavabo. Um espaço escuro, uma nesga de um silêncio difícil. Nos dias ruins, me demorava naquele espaço escuro, o corpo quieto, aquele pedaço de silêncio que me faltava.
Chegava a me abraçar feliz, me formava daquelas horas demoradas de um quarto escuro. No final, sem visita ou recordações reais, sobre a latrina mal acabada e sob as cores quentes e frias, guardava-me dos outros. Meu segredo. Charles e meus filhos se cansaram de me procurar naquelas horas do dia. Não queria pensar neles, queria o silêncio e o escuro.
A metade de um lavabo passou a ser também metade dos meus dias. Era duas, fora e dentro do canto escuro. Às vezes, me arrastava até ali em meio à briga dos filhos, à bufada curta de Charles, ao meu cansaço prolongado. Ali me largava quieta. Ali me entendia. Ali crescia a vontade de nada.  Falava menos, queria mais. Charles fechava os olhos, mas não lhe escapava. Algo mudava em mim.
Um dia, do pequeno lavabo corri ao armário. Joguei as roupas em uma mala velha sem olhar para meus filhos. Não queria aquilo, não era aquilo. Era feita do silêncio que guardavam os dias no canto escuro. Buscaria aquele silêncio em outro lugar, já distante do que mal se formava por apenas uma palavra.
Da minha família, guardo hoje apenas uma foto. O sorriso de Charles, minha barriga grande, além dos primeiros azulejos do que seria um dia meu pedaço esquecido entre a sala e o corredor.   

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Telefone sem fio por Pedro Amorós

Dizem que o escritor dificilmente será um bom crítico literário. Quando leio o blog do escritor espanhol Pedro Amorós percebo o quão equivocada é essa afirmação. Além de um excelente escritor - quem tiver interesse, este site contém mais informações: http://www.pedroamorosjuan.com/ , eu gosto particularmente do seu romance "Bajo el arco en ruina" - Pedro Amorós é um ótimo ensaísta, como vem demonstrando em seu blog, com ensaios muito interessantes. Seu último é sobre meu romance Telefon Sem Fio, convido meus cinco leitores à leitura deste sensível e poético ensaio: http://pedroamoros.blogspot.com.es/2015/08/telefone-sem-fio.html

Ainda torço para que alguma editora brasileira se interesse em publicar seus livros no Brasil, todos sairíamos beneficiados.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Reflexões sobre o nada

Todos têm uma boa história ou estória para contar? Pode até ser, mas prefiro, sempre, a boa história que escondem. É nisso que me fio: todos guardamos (me incluo nessa) um segredo. Feio, sujo, engraçado, triste, bom, ruim, bom, mau, o segredo me move. Gosto e me preocupo com o que não é dito, mais do que com a palavras exatas de um diálogo. Até porque um bom diálogo se realiza mais com o que não se diz, do que com o que se fala, de fato.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

eu jurei que iria mudar de disco, mas sou pouco confiável quando o disco é bom

Este ensaio sobre o Telefone Sem Fio merece um ensaio sobre o próprio ensaio. Incrível como o William Lial enxergou o que pouco vi, como, por exemplo, o vômito do urubu comparado aos cuspes da Alma.

http://www.musarara.com.br/a-esquerda-do-mundo

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Telefone Sem Fio: mais resenhas (prometo mudar o disco na próxima postagem)

Aos poucos meu livro é lido e algumas vezes resulta em resenhas muito interessantes, como estas duas:
http://www.literaturabr.com/2014/08/18/a-estrutura-narrativa-de-um-telefone-sem-fio/

http://andreadebarrosblog.com/2014/05/13/tirando-meu-sono/

Nathan reconhece a melancolia em Alma Pontes, e Andrea de Barros reconhece a si mesmo. Fico muito feliz com as leituras.

domingo, 3 de agosto de 2014

Arte do erro

Do latim errare, errar também significa perambular, vaguear e até mesmo espalhar-se. Gosto muito do erro, de onde, inclusive, nasce a arte.  Erro, na minha modesta opinião, é a transgressão inconsciente da norma. Com corretores automáticos, vídeos do youtube dispostos a expor os erros dos outros como forma de nos esquecermos dos nossos, postagens no facebook  sempre prontas a apontar e quase a criminalizar todo e qualquer erro, passamos a viver em um mundo praticamente estéril (ou seria histérico?), é a "geração jontex", alguém já o disse ou escreveu. Eu sou a rainha dos erros. Telefone sem fio é um belo exemplo. Não seria publicado por outra editora exceto pela Patuá. Imagino algum revisor querendo modificar todas as preposições "pra" para "para" e arranco meus cabelos. "Pra" resume Alma Pontes, inscrita em uma caligrafia compulsiva e descuidada. Em dado momento do livro o leitor se depara com um "podólotra", ops!, diriam alguns, ai, doeu!, diriam outros. Não, não se trata de erro ortográfico, tampouco de digitação. É um erro, sim, mas um erro proposital cometido por Alma, que, ao inscrever o substantivo entre aspas o associa a um locutor, ou melhor, locutores, no plural, os mesmos que qualificam o podólatra de "tarado". Há também uma fala da mãe de Alma marcada por vírgulas, todas suas frases começam e terminam por vírgulas, a guardá-la em uma infinitude incompatível com a gramática normativa. Poderia dar outros e outros exemplos, mas acabarei aqui com o prazer de quem quer encontrá-los. Vale lembrar que: 1) Alma escreve descuidada e compulsivamente dentro de um carro, erros são bem-vindos. 2) Ela não escreve como fala, tampouco como pensa, mas, como sente: novamente, erros são bem-vindos.          

Telefone Sem Fio por Reynaldo Damazio

No dia 26 de julho foi publicada no Guia de Livros da Folha de São Paulo uma resenha muito interessante escrita por Reynaldo Damazio:

"TELEFONE SEM FIO

A brincadeira a que faz alusão o título do romance de Vera Helena Rosssi indica o texto especular, cuja trama se desdobra de modo imprevisível, como as versões que se multiplicam e diversificam ao passar de um ouvinte (ou leitor) a outro.

Grosso modo, o livro fala dos caminhos tortuosos, mas vividos com intensidade, de Alma Pontes, da juventude à dita maturidade - seja lá o que for isso -, numa espécie de formação às avessas, uma vez que a experiência (profissional, afetiva, familiar) se esboroa e não culmina com o aprendizado, mas simplesmente com a consciência de que "nunca temos um plano B".

O fim da tinta de uma de suas inúmeras canetas Bic pode ser dramático e ameaçar a ligação de Alma com o registro frenético e delicado do cotidiano, no limite entre as vozes da escritora e da jornalista."

Fonte:
http://acervo.folha.com.br/fsp/2014/07/26/567/
página: NF8

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A vida é



Sabia do tanto que se fechava na palavra dor. “Viver é estar preparado para sentir dor.” Esta era a máxima que um avô poderia ensinar a sua neta. Ele entendia o quanto poderia preparar sua neta com aquela frase. Era seu dever, afinal. Dever cívico, diga-se. Preparar um neto, aquele ser que se aquece nos olhos do avô, nos muitos anos que estes olhos guardam; transmitir a este mínimo corpo o essencial da vida. “E o principal é isto, saber da dor, minha pequena.”
A neta não piscava, mal respirava, atenta à respiração lenta do avô, às verdades sobre as quais se encurvava uma vida excedente. “Minha menina, a gente até pode passar a vida inteira livre dela. Mas pra qualquer hora a dor chega, ah, se chega. E quando falo dela, não me refiro a uma topada do dedo no pé da cômoda, não. Digo de quando arrancam seu dedo fora. Da dor extrema. Sabe como é? Arrancar um dedo fora?” A pequena sacudia a cabeça como se entendesse do extremo. “Eu já. Sei o que é ter um dedo amputado.” Ele arrancou o sapato e mostrou o pé direito deformado pelos joanetes e pela ausência de um dedo. Ela quase pulou da cadeira, mas se ajeitou melhor no assento duro, em uma pose heroica, como que preparada a toda dor.
Por pouco, não lembrou ao velho de quando tinha passado por uma cirurgia no olho esquerdo, sem anestesia. O pai havia insistido para que a filha recebesse por uma agulha a supressão de qualquer sensibilidade física. Como resposta apenas ganhara uma risada alta da criança, que queria a dor. Mas o que é a dor de um terçol arrancado se comparada a de um dedo decepado? Corou, envergonhou-se da lembrança.
“Você não pode ver, minha menina, mas tudo é dor. A gente quer se esconder debaixo de um teto, em um amor gigante, que nem a gente sabe explicar direito o que é, dentro de uma casa limpa, que a gente vive e morre pra manter ela limpa. Disfarçado na bondade, a gente se ilude de que a linha invisível já é outro mundo.” Apontou uma linha fina de poeira aquecida por uma nesga de sol. A criança segurou firme as duas mãos nos pés da cadeira.
“Essa linha invisível que faz a gente acreditar que está protegido. Que a gente é bem diferente daquela ferida pustulenta na perna do pedinte caído na calçada. É tudo a mesma coisa. Isso é que é a vida. A carne da presa estraçalhada pelas leoas. E se você não souber disso agora, um dia vai saber, pequena menina. Então que seja eu, seu avô, que te conte antes, que te prepare. É meu dever, dever de avô.”          
A porta rangeu, a mãe tocou o cabelo curto da filha aproximando-a da linha invisível de poeira. “Lê, o vovô precisa descansar. O que é isso agora, pai? não chora.” “Sua neta precisa saber da verdade.” “Deixa de coisa, pai, vê se descansa. Dá um beijo no vovô, Lê.” A mãe deixou que a filha desse o beijo que ela nunca havia dado, um beijo guardado por tantos e tantos anos. Afastou a filha da dor, ainda que do próprio nascimento se marcasse no corpo da mãe a própria expiação. Deixaram o avô descansar, ainda que do próprio corpo não nascesse cansaço, mas uma falta dolorida e exposta.