"Querida, você tem um coração na garganta"
Minha avó

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

2010 - um ano par

Amigos, final de ano apertado! Aproveito minha folga no Doutorado pra escrever Telefone Sem Fio. Sim voltei a ele, mudei tudo e mais um pouco. A la Heráclito. Mas a idéia ainda é a mesma.


De resto, feliz 2010!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pedro Amorós

Resenha belíssima sobre meu  livro não publicado "Estamos Todos Bem" feita pelo escritor espanhol Pedro Amorós Juan, autor de Bajo el arco en ruina* (Valencia, Nuevos Autores) e Beatriz Cenci, una historia romana (Madrid, Ediciones Irreverentes). Conheci recentemente o trabalho do escritor e já posso me considerar sua fã. Ter uma resenha assinada por ele é uma honra! Convido a todos a lerem o texto: http://pedroamoros.blogspot.com/2009/11/estamos-todos-bem.html


*sem exagero, um dos melhores livros que li neste ano (detalhe: neste ano li Balzac, Joseph Roth, João do Rio, Nelson Rodrigues, etc, preciso dizer mais?)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Desidéria - Morávia

Estava relendo Desidéria para minha Tese, como adoro esse livro! Ele já me inspirou tanto. Não por acaso a Clara do meu Estamos todos bem também passa a ser comandada por vozes (com a diferença que Desidéria seguia apenas uma voz)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

tempo em "m" e "s" ou em "s" "e" "m"

No canto superior direito do site Cronópios , ao lado do relógio, um poema (poema - exagero do Pipol) meu entre dois Chicos - Chico Lopes e Chico Pascoal. Coloca a mãozinha na seta, meu bem...
Leia também O que é isto - Clarice Lispector?  e Boas Novas

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Jó e Santo Agostinho

Outra raspadinha (direto do twitter):

"Permiti, porém, que “eu, pó e cinza”, fale à vossa misericórdia."
Santo Agostinho

"Confundiste o meu nada; reduzido
A cinza e pó que sou, mereço a morte."
Livro de Jó

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Uma ação que vale mais do que 2683 caracteres

Aproveito para publicar no meu blog o comentário de meu marido que não foi publicado no Blog do Hélio de La Peña sobre Danilo Gentili, sua piadinha infeliz e sua explicação mais infeliz ainda sobre a piada (caso citado pela revista Fórum durante entrevista com Kabengele Munanga - dica da Ana Rüsche)
. Aliás, é de se pensar porque Hélio de La Peña não publicou seu comentário:

"O preconceito não está nos olhos de quem vê e sim nas palavras, as palavras não são vistas são compreendidas,o não entendimento é inabilidade para com a lingua, incapacidade intelectual , ou demência.O discurso de justificativa e ou explicação do Danilo Gentili tem a vaga e descabida tentativa de legitimar a normalidade de chamar negros de macacos.Palavra é coisa séria.É necessário responsabilidade para com a palavra,muitos desapareceram, ou se imortalizaram por ela, é necessário respeito pela história (que por sinal nos concedeu grandes privilégios como 400 anos escravidão, (nosso trabalho não foi remunerado durante um breve espaço de tempo...) miséria,abandono,indiferença, sub emprego,cotas..enfim.como podem ver no quesito concessões estamos bem também.Não queremos o que nos é dado, queremos sim o que nos foi tirado.Respeito é um dos quesitos.Esse tipo de identidade e de relacionamento não precisamos. Deixo de respeitar o Danilo Gentili , sua produção artística já não me interessa mais.Imagino que se os 65% da população (considerada como macacos) deixar de assistir ao CQC será também um grande Mico."

P.S.: em um dos comentarios, alguem afirmara que o preconceito estava nos olhos de quem via

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Clarice Lispector, eu e os outros

Outra raspadinha (ou será plágio?): sempre que posso, pesquiso na internet publicações ou trabalhos relacionados à Clarice Lispector jornalista. Todos que leem este blog, e que por conseguinte me conhecem, sabem que estudo há mais de cinco anos as entrevistas realizadas por Clarice Lispector para as revistas Manchete e Fatos e Fotos. Hoje, descobri o artigo: "Diálogos possíveis com Clarice Lispector: um estudo do gênero entrevista na Revista Manchete", realizado por Michelle Moreira Braz dos Santos sob orientação de Marcelo Magalhães Bulhões para o XIV Congresso de ciências da Comunicação na região sudeste - Rio de Janeiro - 7 a 9 de maio de 2009. Já o título me chamou a atenção por ser muito semelhante ao da minha dissertação de mestrado: "Diálogos possíveis com Clarice Lispector: as entrevistas de uma escritora jornalista". Claro, a considerar que "Diálogos possíveis com Clarice Lispector" era o nome da coluna assinada pela escritora na Revista Manchete, a coincidência é também possível. Porém ao ler o texto notei incríveis semelhanças com minha dissertação, desde a fundamentação teórica até mesmo à construção de parágrafos inteiros. Comparo aqui uma passagem da minha dissertação a uma passagem do artigo para provar que ainda não enlouqueci:


"Em resposta à jornalista Isa Cambará, da revista Veja, sobre a necessidade de se publicar De Corpo Inteiro , uma coletânea com algumas de suas entrevistas realizadas para a revista Manchete, Clarice Lispector revela:

'Eu me expus nessas entrevistas e consegui assim captar a confiança de meus entrevistados a ponto de eles próprios se exporem. As entrevistas são interessantes porque revelam o inesperado das personalidades entrevistadas. Há muita conversa e não as clássicas perguntas.'"
[...] minha dissertação


"Em resposta à jornalista Isa Cambará, da revista Veja, sobre o motivo de publicar De Corpo Inteiro , livro que reúne entrevistas da revista Manchete, Clarice Lispector revelou:

'Eu me expus nessas entrevistas e consegui assim captar a confiança de meus entrevistados a ponto de eles próprios se exporem. As entrevistas são interessantes porque revelam o inesperado das personalidades entrevistadas. Há muita conversa e não as clássicas perguntas.' " [...](artigo)


Detalhe: minha dissertação sequer está na bibliografia do trabalho. Deixei os links no texto, para quem quiser comparar um com outro (sobretudo com o início de minha dissertação)
Provocação: raspadinha ou Ctrl C + Ctrl V?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

João do Rio e Laclos

Outra raspadinha: "a técnica epistolar era pouco usada nas literaturas do tempo [...] depois de ter tido o seu grande momento no século XVIII e algum relevo no seguinte" é o que afirma Antônio Cândido na apresentação do livro A correspondência de uma estação de cura. O livro é justamente um romance epistolar escrito por João do Rio após sua estada em 1917 em Poços de Caldas, que, no início do século passado,era a mais famosa estância brasileira, visitada por artistas, políticos, enfim, pela elite da época. Narrado inteiramente por cartas escritas por visitantes da cidade - em sua maioria, hóspedes do Grande Hotel - que não foram enviadas ao seu destinatário (o que me lembra Paul Celan, e a tal da mensagem na garrafa enviada ao mar), o livro desvela-se interessante por seu caráter inovador. Opa, disse inovador? Como assim, isto é uma raspadinha, Vera! Ao que me retrato aqui: é de alguma forma inovador, sobretudo pelo fato de as cartas não terem chegado ao seu destino final, porém, sua leitura, leve e gostosa (saborosamente inatual, como bem o disse Antônio Cândido) me remeteu de imediato ao Ligações Pegrigosas de Laclos, principalmente pelo que o livro tem de mais especial: um mesmo fato narrado sob diferentes pontos de vista, no caso, diferentes vozes incritas em missivas (e, com efeito, a cada epístola, uma voz diversa), claro, no romance de João do Rio (antes de tudo, grande repórter das ruas do Rio de Janeiro da Belle Époque) este artifício é mais acentuado. Outra semelhança: a Maria de Albuquerque e Olivério Pereira Gomes em muito me lembraram Marquise de Merteuile e o Visconde de Valmont de Ligações PerigosasPara quem já leu ou vai ler o romance de João do Rio fica aqui minha pequena provocação: seriam também Maria de Albuquerque e Olivério ex-amantes? E pras minhas raspadinhas, outra provocação em uma pergunta retórica: não pode um palimpsesto ser inovador?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Minha vez!

Sei que é abusado (e um tanto irônico) de minha parte arriscar algumas palavras de crítico após postar uma crítica (hoje absurda) sobre um dos melhores livros da minha estante, mas por abusada e irônica que sou mantenho-me no teclado.
Gosto de livros que me desafiem, que ocultem outros sentidos, que não subestimem a inteligência do leitor, mas que, pelo contrário, exijam dela certo esforço. Por isso me irrito quando leio críticas que valorizam justamente aquilo que, na minha opinião, corresponde ao aspecto negativo da obra: o menosprezo pela inteligência do leitor. Não, não é interessante o texto de "linguagem simples e fácil", há que se privilegiar o extremo cuidado com as palavras, com a construção das frases.
Não, não é interessante o que se entende como "literatura pop". Aliás, pelo que tenho lido ultimamente, cheguei à conclusão de que o termo "literatura pop" é eufemismo. Gosto quando percebo que o repertório do escritor não se restringe a bandas de rock.
Por fim, gosto quando fecho o livro, mas este continua em mim, modifica meu olhar, e, por conseguinte, meu mundo. O que, por vezes, pra infelicidade minha, não ocorre, e, quando fecho alguns livros, consigo, no máximo, sentir raiva, raiva de quem o escreveu, de quem o editou, de quem o indicou (geralmente esses tais críticos camaradas!), de quem o vendeu e sobretudo de quem o comprou.
Enfim uma crítica pra não ser levada a sério, apenas o desabafo de uma leitora bolsista (entenda-se aqui, sem dinheiro!) que jogou no lixo 50 reais com livros ruins.

PS: Anônimo, que bom que é você, seu doce e eu o aguardamos neste final de semana aqui em casa, prontos a cometermos um crime!

sábado, 25 de julho de 2009

Dou um doce

pra quem descobrir a que obra o crítico, cujo nome é mais um entre tantos, se refere:

"A obra do (((( é deficiente, senão falsa, no fundo, porque não enfrenta com o verdadeiro problema que se propôs a resolver e só filosofou sobre caracteres de uma vulgaridade perfeita; é deficiente na forma, porque não há nitidez, não há desenho, mas bosquejos, não há colorido, mas pinceladas ao acaso"

(a.p. - acho que já li algo muito parecido em algum lugar)

Resposta nos próximos capítulos

Pra não esquecer: meu blog está na lista de blogs da Ediciones Irreverentes, entre aqui e conheça também outros tantos blogs e sites bem interessantes

domingo, 5 de julho de 2009

Conto a quatro mãos




O conto iniciado por mim e continuado por Débora (responsável também pelo título) agora nas Narrativas do Espólio. Pra quem não se lembra, é esse aqui

Estava me sentindo bem naquela manhã. Uma espécie de alegria sincrônica, um rombo no peito simultâneo ao que me dessem como garantia de vida naquela manhã. Certa música que ouvisse antes de ligar o rádio, de fato. Uma frase dita, antes que alguém pensasse em abrir a boca. Uma ligação importante concomitante (odeio esta palavra!) ao meu desejo de ser importante. “Não pode ser tão perfeito!”, pensei. Não estava acostumada com qualquer felicidade isenta de esforço. Sempre desconfio da alegria espontânea.

Tranquei meu quarto, já inclinada à bondade. Aproveitei meu café da manhã com a boca mais doce, receptiva, distraída ante uma felicidade por se roubar. Mastiguei macio o pão amanhecido, mergulhado no café frio. Rumo à loja onde trabalho, larguei-me no confortável movimento de minhas pernas. Que sensação, por Deus!

Os rostos cansados bocejavam duvidosos, qualquer esboço de felicidade era incompatível com um metrô abarrotado de desilusão. Encaravam-me solitários e céticos. Estiquei meu sorriso, como uma afronta.[...]

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Axioma

"A poesia é um coração vivo" - Isaías, meu sobrinho de oito anos

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Dia do livro

Ganhei o meu primeiro livro quando ainda não sabia ler. Um livro sem texto. Apenas figuras e uma enorme vontade de se preencher o que não estava escrito. O livro exerceu em mim tamanho fascínio que seus personagens e suas cenas se perpetuaram na minha memória: aquele senhor alto e magro, aquele sorvete a se derreter nas mãos de um sorveteiro cansado, aquele dia verde e quente, aquela criança que também era eu, hipnotizada ante um mundo por se descobrir. Inventava histórias infinitas, que por vezes se encontravam, por outras se escondiam, por outras não se repetiam e por outras se copiavam. Aos quatro anos de idade fui enfeitiçada de fato pela magia da ficção. Seu feitiço permeou minha vida sob a forma de outros livros, estes já com textos, palavras, mas sem imagens, um ponto a favor à minha imaginação. O que me faz ainda hoje inventar histórias. E ainda hoje abrir um livro como quem nasce.
Por isso hoje não poderia deixar de escrever sobre o livro, deste dia tão especial. Dia também de São Jorge e de São Pixinguinha, diga-se, razão pela qual gosto ainda mais de 23 de abril.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Boris Vian

http://www.youtube.com/watch?v=4b5Cs0AlsZM


Não consegui postar o vídeo, mas vale a pena visitar o link!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Feliz Páscoa!

Eu, meu marido, vacalhau e binho

PS: quem se interessou pelo pequeno trecho do meu artigo sobre Rousseau, eis o link



quinta-feira, 2 de abril de 2009

números, números, números

Antes de o rei da França, Carlos IX, determinar em 1564 que o ano se iniciasse, de acordo com o calendário gregoriano, no dia primeiro de janeiro,o Ano-Novo era festejado com a chegada da Primavera e durava até o dia Primeiro de Abril.

Como resultado da cultura medieval, cujos símbolos matemáticos eram ao mesmo tempo símbolos teológicos e "serviam para explicar simbolicamente as verdades divinas"*, Dante dividiu seu poema A Divina Comédia em 3 partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Cada parte foi dividida em 33 cantos.

Jesus Cristo morreu aos 33 anos (ou a 10 dias de completar 33 anos, segundo os cálculos de alguns historiadores)

Em Estamos todos bem, Clara quase comete suicídio aos 33 anos.

Ontem, dia Primeiro de Abril, eu, (PrimaVera pra Ana e pra , quando não me chamam de Pituca) completei 33 anos.

*Aron I. Gurevitch As Categorias da Cultura Medieval. Lisboa: Editorial Caminho, SA, 1990.

sábado, 21 de março de 2009

Como político ele é um cantor!

Acreditem ou não, estas foram as respostas do cantor Agnaldo Timóteo (é difícil chamá-lo de vereador!)às perguntas formuladas pela Carol Goy - que o adotou pela Campanha Adote um Vereador do Milton Jung:

1- Qual o critério que o Senhor usou para a escolha dos funcionários e assessores do seu gabinete?
R: Competência e amizade.

2- Quanto será gasto com cada assessor e funcionário? Qual será o salário de cada um? O que cada um faz e como ajudam no trabalho do vereador?
R: Os salários são definidos pelo cargo. (eee.....??????)


3- Como o senhor acha que podemos contribuir para diminuir o nepotismo nas instituições políticas do Brasil?
R: Por acaso nossos parentes são bandidos? Por acaso não teem famílias e responsabilidades? (sem palavras - essa é a pior!!!)

4- Por que não existe um site especifico para seu mandato?
R: As informações estão no meu Site. (humm, e qual é o site mesmo?)

5- Existe a possibilidade do Senhor colocar em seu site a sua atuação na Câmara? Projetos apresentados (atualizados) presença em plenário, agenda parlamentar e assim
por diante?
R: Você precisa prestigiar a TV Câmara (isso é sim ou nao?)

6- Quanto foi gasto na sua Campanha? Quem são os seus doadores de Campanha?
R: Informações de domínio público, mas gastei somente o necessário. (de domínio público, e por que não é informada pelo próprio vereador agora!?)

Mais informações sobre Agnaldo Timóteo no site da Carol: http://nacoladotimoteo.blogspot.com/

quinta-feira, 19 de março de 2009

Devaneios de um caminhante solitário

"A vontade de olhar para o interior das coisas torna a visão aguçada, a visão penetrante. Transforma a visão numa violência. Ela detecta a falha, a fenda, a fissura pela qual se pode violar o segredo das coisas ocultas. A partir dessa vontade de olhar para o interior das coisas, de olhar o que não se vê, o que não se deve ver, formam-se os devaneios tensos, devaneios que formam um vinco entre as sobrancelhas. (...) E o ser que sonha com planos de profundidade nas coisas acaba por determinar em si mesmo planos de profundidade diferentes" (Bachelard, 1990; p.7,8)

Do meu próximo artigo na revista Kalíope, em que analiso as múltiplas personas de Rousseau em Devaneios de um caminhante solitário

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Axioma

O que nos difere dos bichos: o leão não convida a lebre pra tomar um chá em casa.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Copy left

A criação deste blog foi movida por uma pergunta que ainda me persegue e me incomoda: há idéia (até 2012, com acento mesmo) 100 % original? e, por conseguinte, somos originais? O escritor é, sobretudo, leitor, (assim o espero). Daí a grande questão: até que ponto sua criação literária não sofre interferências e até que ponto é primeira e única? No diário que mantinha durante sua vida diplomática na Alemanha, Guimarães Rosa escrevia "100% original?" acima de alguns de seus pensamentos. Para Pierce, o pensamento é uma inferência, argumento este aliás suscitado por ele contra a tese cartesiana acerca da intuição. Nenhum pensamento nasce do nada, uma vez que o pensamento é infinito, sem começo ou fim, logo, a possibilidade da intuição, que justamente se engendra do nada, é nula. Porém, a ciência, a arte e a sociedade permaneceriam a mesma, sem a urdidura de algo original, e aqui me refiro à criação de novos conceitos, novas concepções artísticas, e invenções outras capazes de modificar peremptoriamente o olhar humano. Retomo Pierce e seu complexo conceito de abdução. Pierce nega a intuição, que surge do nada, porém, acredita no instinto, inerente ao ser vivo. Destarte, "a habilidade para fazer conjecturas é para o homem aquilo que o vôo (de novo, só 2012) e o canto são para os pássaros" (SANTAELLA, Lúcia. O método anticartesiano de C.S.Pierce. São Paulo: Editora Unesp, 2004. p.105). E a abdução (também o insight), tida por ele como uma inferência inconsciente, é uma espécie de julgamento de percepção, ou seja, um tipo de proposição que nos informa sobre aquilo que está sendo percebido. Há que se considerar os três elementos que envolvem a percepção: o percepto, que corresponde ao objeto da percepção, o percipium, ou o modo como o percepto, traduzido pelos nossos órgãos sensórios, é imediatamente interpretado no julgamento perceptório, que se refere ao terceiro elemento da percepção. Segundo Pierce, o julgamento de percepção é falível, mas indubitável, e apenas, sob este aspecto difere da inferencia abdutiva. Todavia, na sua formação, ambos são idênticos: são inferências inconscientes, fora do nosso controle (o que muito a aproxima da criação artística). Ainda mantenho minha dúvida, mais sofisticada à luz de Pierce, com algumas ressalvas, confesso, pois entendo intuição como algo relacionado à percepção e não ao pensamento primeiro [até porque provenho de uma família intuitiva, e tal fato é incontestável]. Mas, abro a discussão para quem mais quiser chegar. A roda está aberta.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Ninguém dia-a-dia

Querido, acuso e recuso seu recado na geladeira, preso ao lado do telefone da lavanderia. {Creio que o fez de propósito. Bem você, meu bem} Ao que penso. Nascer tem seu preço. O nosso é alto, meu amor. Minhas economias mal pagam o meu próprio nascimento.

P.S.: Jogue fora seu pedaço deserto de vida, caro e inútil neste mundo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Russo não tem

Andrea de Barros, talentosa poeta e grande amiga minha, estuda russo já há algum tempo (desde que a conheço, há cerca de 4 anos, a vejo às voltas com o alfabeto cirílico) e esses dias, pelo blog dela, descobri que não existe o verbo ter em russo. Muito interessante sua descoberta e sua observação acerca do fato. Quem quiser ler mair passa

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sophisticated lady - you cry

They say into your early life romance came
And in this heart of yours burned a flame
A flame that flickered one day and died away
Then, with disillusion deep in your eyes
You learned that fools in love soon grow wise
The years have changed you, somehow
I see you now

Smoking, drinking, never thinking of tomorrow, nonchalant
Diamonds shining, dancing, dining with some man in a restaurant
Is that all you really want?
No, sophisticated lady,
I know, you miss the love you lost long ago
And when nobody is nigh you cry

Smoking, drinking, never thinking of tomorrow, nonchalant
Diamonds shining, dancing, dining with some man in a restaurant
Is that all you really want?
No, sophisticated lady,
I know, you miss the love you lost long ago
And when nobody is nigh you cry

Sophisticated lady
You cry


Sempre penso na Lady Ashley de "O sol também se levanta" quando ouço esta música na voz da Lady Day.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Anuncie aqui

Não sei se alguém reparou, mas o Palimpsesto agora tem publicidade. Quem quiser "anunciar" no blog, basta criar um "anúncio" com no máximo 300 caracteres além de um título curto e enviá-lo para o e-mail: verossi@uol.com.br. Somente serão publicados anúncios nonsense. O "anúncio" será linkado ao blog do seu "anunciante". Aceitamos muita criatividade como forma de pagamento.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Eu e vós qualquer dia

Recebi teu e-mail, o li com prazer e algum terror. Pequena, como bem o disseste naquele dia, a esperança é a última que morre. Morremos antes. Da minha parte, revido o fim e o peso dos nossos dias com nossa embriaguez. Na medida em que também os brindo. Ah, antes que me esqueça, se precisares da vida, ainda a tenho aqui, deserta e fria, inerte sob meu corpo morno. Ainda não decidi o que fazer dela, por isso é tua, magrelinha. Em dias mais enjoados, há que se curvar sobre a pia do nosso minúsculo banheiro e deixar que uma gota de suor salgue a pele, enquanto se esvai pelo ralo o não mais suportar aquilo de cheiro de carne viva. A barriga crescerá, assim como o pouco de vida que darei a ti, minha doce.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Gregório de Matos, Camões e Antigo Testamento

Outra raspadinha: esta foi feita pelos alunos do meu estágio na PUC (esta nova geração ainda vai dominar o mundo!)

Gregório de Matos

SETE ANOS A NOBREZA DA BAHIA
Serviu a uma pastora indiana bela
Porém serviu à Índia, e não a ela,
Que à Índia só por prêmio pretendia.

Mil dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la:
Mas Frei Tomás, usando de cautela,
Deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.

Vendo o Brasil que por tão sujos modos
Se lhe usurpara a sua Dona Elvira
Quase a golpes de um maço e de uma golva:

Logo se arrependeram de amar todos
E qualquer mais amara, se não fora
Para tão limpo amor tão suja noiva.

Luís Vaz de Camões -

SETE ANOS DE PASTOR JACÓ SERVIA
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta vida!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Prêmio Dardos - os indicados


Não disse!? Fazendo as contas, ultrapasso os 15 indicados. Vou cortar alguns (os mais famosos, que já têm outras indicações por aí)

Aqui vai minha listinha. A regra, todos já sabem

Diálogos e Intertextos - literatura e tudo mais de uma talentosa poeta.

Por que elas não querem casar??? - reflexões inteligentes, bem humoradas e um tanto poéticas sobre o relacionamento humano (no singular e no plural)

A loucura é sensata - Não precisa dizer mais nada, ainda pelo nome do autor, Victor Hugo, mantenho-me sem palavras

A Lamparina - sobre a "luz das idéias" que "não se encontra apenas no conhecimento, mas nos porões daquelas mentes que voltam a si e refletem a própria existência"

SP a pé - SP mais bonita sob os pés e as palavras dessa contadora de causos: Débora (coautora do meu conto mais bonito)

Peixe de Aquário - Deixaria os mais famosos de lado, mas não resisto, sou fã de Ana Rüsche (que se mantém com trema pós reforma ortográfica) não somente pelo que escreve como por suas inúmeras ações em prol da literatura e da poesia.

Adotei o Vereador Aurélio Miguel - todos os blogs criados, com base na Campanha Adote um Vereador do Mílton Jung, para acompanhar o trabalho dos vereadores de São Paulo merecem o prêmio. Como os blogs a seguir:

Adotei o Vereador Floriano Pesaro

Confissões de um ignorante - adotou Wadih Mutran

Cuidando da Cidadania - adotou Netinho de Paula

De olho no Antônio Carlos Rodrigues

De olho no Vereador Kamia

Moralize - de olho no Celso Jatene e Penna

Na Cola do Timóteo - Adotou Agnaldo Timóteo

Tô de olho no Netinho

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Em alguma entrevista de trabalho

Quem nunca passou por entrevistas de trabalho? E eu imagino quem formula as perguntas. São tão estúpidas, na maioria das vezes. Reproduzo aqui uma pela qual passei:

"-Você é boa em que? Quero sinceridade na resposta. Sim, porque temos que saber em que somos bons, blá,blá,blá
-Sou boa em Resta-Um, Palavras Cruzadas e Sudoku. O emprego é meu?"

Essa vai pro Telefone sem fio

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Contão com título e melhor do que original!

A Débora terminou o conto. Ficou melhor do que se eu continuasse. Não perdeu o tom, ao mesmo tempo em que acrescentou um "tempero" todo dela. Adorei a brincadeira! Ah, o título é dela também.


Felicidade fora de contexto

Estava me sentindo bem naquela manhã. Uma espécie de alegria sincrônica, um rombo no peito simultâneo ao que me dessem como garantia de vida. Certa música que ouvisse antes de ligar o rádio, de fato. Uma frase dita antes que alguém pensasse em abrir a boca. Uma ligação importante concomitante (odeio esta palavra!) ao meu desejo de ser importante. “Não pode ser tão perfeito!”, pensei. Não estava acostumada a qualquer felicidade isenta de esforço. Sempre desconfio da alegria espontânea.

Tranquei meu quarto, já inclinada à bondade. Aproveitei meu café da manhã com a boca mais doce, receptiva, distraída ante uma felicidade por se roubar. Mastiguei macio o pão amanhecido, mergulhado no café frio. Rumo à loja onde trabalho, larguei-me no confortável movimento de minhas pernas. Que sensação, por Deus!

Os rostos cansados bocejavam duvidosos, qualquer esboço de felicidade era incompatível com um metrô abarrotado de desilusão. Encaravam-me solitários e céticos. Estiquei meu sorriso, como uma afronta. Sabia que não iria durar, pois mantenho um constante vinco preocupado entre as sobrancelhas, a fazer do sorriso um movimento antinatural dos lábios. Mas desafiei minha natureza, naquela manhã, e permaneci sorridente.

Afinal, a alegria surgiu, não pedi por ela. Tinha mais era que aproveitar aquele estado quase eufórico. Ainda que receosa. Sabia que a qualquer fração de segundo ela poderia me escapar. Mantive o sorriso. Como se fosse possível reter sentimento travesso dentro da gente. Como quem vê repetidas vezes um final feliz de filme na esperança de sentir a mesma felicidade que sentiu da primeira vez. Momentos assim não se guardam num vidrinho.

Segui em frente. Senti uma compaixão por cada cliente que entrava na loja. Vontade imensa de dar um abraço até mesmo na mais infeliz das criaturas. Meu sorriso estampado no rosto nem precisava mais de esforço. Que tipo de sentimento é esse que desafia até o vinco preocupado na testa? Um problema, um bate-boca, uma discussão. Clientes em tempos de Natal são sempre estressados. Nada abalava minha euforia silenciosa. Dessas de sorriso de canto de lábio.

Como se fosse eu um anjo incumbido de passar ternura aos homens. Que besteira. Justo eu, que nunca dei crédito aos anjos, aos santos, às cartas, aos búzios e a tudo o que promete felicidade instantânea. A noite caiu. Hora de voltar para casa. Achei que aquele sentimento inebriante me deixaria ao meio dia. Não. Ele me perseguiu ao longo das horas. Na volta para casa. Na rua escura, feiosa e cheirando a urina onde vivo. Me perseguiu na minha janta solitária, feita de sobras e misturas improváveis. Ainda na hora da novela, sorriso insistente.

Fui dormir sem entender como é possível a felicidade fora de contexto. E me acreditando pouco merecedora disso. O dia seguinte seria a continuação de ontem. Hoje simplesmente não existiu.

E por falar em Ademir Assunção

Um poema dele (ele é foda!)

aos poucos

vamos ficando

loucos



aos loucos

nada de muito

pouco

SOLILÓQUIOS

Não perco a mania de falar sozinha, como já o disse aqui. Minha irmã chef, advogada e inteligente que só, Ly, disse-me uma vez que eu mesma me basto em uma conversa, eu-mesma pergunto, eu-mesma respondo e até eu-mesma discordo de mim.

Como não güento, quero dividir com alguém minha solidão, posto aqui alguns dos diálogos erigidos entre mim e mim-mesma. O primeiro já o escrevi de certa forma por aí e por aqui:

-Não me interessam seu estado civil, sua profissão, sequer sua gravata colorida. Somos mais do que formulários de banco por se preencherem.
-E o que somos?
-Nunca saberemos, por isso somos mais.

---

-Você é ateu?
-Prefiro o mistério.

---

-Somos audaciosos, minha torta mão esquerda.
-Tamo mais pra loucos, meus redondos olhos fechados.

---

-Te amo.
-E agora?

---

-Quem é você?
-O entorno.

---

-Não tenho saco pra livros de auto-ajuda.
-Logo você, que sempre pede socorro.
-Ainda assim, Ademir Assunção parece-me mais convincente: "não sou exemplo pra ninguém".

domingo, 4 de janeiro de 2009

NOSSO SAMBA





Nunca escrevi cartas de amor pra ele. Sempre tive medo de desdizer o que sinto. Além do que ele ultrapassa qualquer poesia. Mas, por mais um ano juntos (tiramos essa foto ontem na Av. Paulista), posto aqui nosso samba que um dia ele irá musicar, na nossa casinha lá em Marambaia.


Quem ousa definir o amor? Aquilo que a voz cala, aperta o peito, machuca de tão bom. Abriga um olhar desamparado, domina cada desatenção de um momento desapercebido, irracionaliza o racional, entorpece a sobriedade. Até que abranda as feridas de outros amores, aconchega os anseios, engendra outros, e, dia a dia reconstrói-se nas idiossincrasias do outro. É quando casa-se. Casa-se um riso e uma brincadeira, um sono quente e um delicioso bom-dia, um café da manhã e um beijo de pão com manteiga, um olhar confidente e segredos no ouvido, um sonho e uma realidade, a dois.