"Querida, você tem um coração na garganta"
Minha avó

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Reflexões sobre o nada

Todos têm uma boa história ou estória para contar? Pode até ser, mas prefiro, sempre, a boa história que escondem. É nisso que me fio: todos guardamos (me incluo nessa) um segredo. Feio, sujo, engraçado, triste, bom, ruim, bom, mau, o segredo me move. Gosto e me preocupo com o que não é dito, mais do que com a palavras exatas de um diálogo. Até porque um bom diálogo se realiza mais com o que não se diz, do que com o que se fala, de fato.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

eu jurei que iria mudar de disco, mas sou pouco confiável quando o disco é bom

Este ensaio sobre o Telefone Sem Fio merece um ensaio sobre o próprio ensaio. Incrível como o William Lial enxergou o que pouco vi, como, por exemplo, o vômito do urubu comparado aos cuspes da Alma.

http://www.musarara.com.br/a-esquerda-do-mundo

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Telefone Sem Fio: mais resenhas (prometo mudar o disco na próxima postagem)

Aos poucos meu livro é lido e algumas vezes resulta em resenhas muito interessantes, como estas duas:
http://www.literaturabr.com/2014/08/18/a-estrutura-narrativa-de-um-telefone-sem-fio/

http://andreadebarrosblog.com/2014/05/13/tirando-meu-sono/

Nathan reconhece a melancolia em Alma Pontes, e Andrea de Barros reconhece a si mesmo. Fico muito feliz com as leituras.

domingo, 3 de agosto de 2014

Arte do erro

Do latim errare, errar também significa perambular, vaguear e até mesmo espalhar-se. Gosto muito do erro, de onde, inclusive, nasce a arte.  Erro, na minha modesta opinião, é a transgressão inconsciente da norma. Com corretores automáticos, vídeos do youtube dispostos a expor os erros dos outros como forma de nos esquecermos dos nossos, postagens no facebook  sempre prontas a apontar e quase a criminalizar todo e qualquer erro, passamos a viver em um mundo praticamente estéril (ou seria histérico?), é a "geração jontex", alguém já o disse ou escreveu. Eu sou a rainha dos erros. Telefone sem fio é um belo exemplo. Não seria publicado por outra editora exceto pela Patuá. Imagino algum revisor querendo modificar todas as preposições "pra" para "para" e arranco meus cabelos. "Pra" resume Alma Pontes, inscrita em uma caligrafia compulsiva e descuidada. Em dado momento do livro o leitor se depara com um "podólotra", ops!, diriam alguns, ai, doeu!, diriam outros. Não, não se trata de erro ortográfico, tampouco de digitação. É um erro, sim, mas um erro proposital cometido por Alma, que, ao inscrever o substantivo entre aspas o associa a um locutor, ou melhor, locutores, no plural, os mesmos que qualificam o podólatra de "tarado". Há também uma fala da mãe de Alma marcada por vírgulas, todas suas frases começam e terminam por vírgulas, a guardá-la em uma infinitude incompatível com a gramática normativa. Poderia dar outros e outros exemplos, mas acabarei aqui com o prazer de quem quer encontrá-los. Vale lembrar que: 1) Alma escreve descuidada e compulsivamente dentro de um carro, erros são bem-vindos. 2) Ela não escreve como fala, tampouco como pensa, mas, como sente: novamente, erros são bem-vindos.          

Telefone Sem Fio por Reynaldo Damazio

No dia 26 de julho foi publicada no Guia de Livros da Folha de São Paulo uma resenha muito interessante escrita por Reynaldo Damazio:

"TELEFONE SEM FIO

A brincadeira a que faz alusão o título do romance de Vera Helena Rosssi indica o texto especular, cuja trama se desdobra de modo imprevisível, como as versões que se multiplicam e diversificam ao passar de um ouvinte (ou leitor) a outro.

Grosso modo, o livro fala dos caminhos tortuosos, mas vividos com intensidade, de Alma Pontes, da juventude à dita maturidade - seja lá o que for isso -, numa espécie de formação às avessas, uma vez que a experiência (profissional, afetiva, familiar) se esboroa e não culmina com o aprendizado, mas simplesmente com a consciência de que "nunca temos um plano B".

O fim da tinta de uma de suas inúmeras canetas Bic pode ser dramático e ameaçar a ligação de Alma com o registro frenético e delicado do cotidiano, no limite entre as vozes da escritora e da jornalista."

Fonte:
http://acervo.folha.com.br/fsp/2014/07/26/567/
página: NF8

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A vida é



Sabia do tanto que se fechava na palavra dor. “Viver é estar preparado para sentir dor.” Esta era a máxima que um avô poderia ensinar a sua neta. Ele entendia o quanto poderia preparar sua neta com aquela frase. Era seu dever, afinal. Dever cívico, diga-se. Preparar um neto, aquele ser que se aquece nos olhos do avô, nos muitos anos que estes olhos guardam; transmitir a este mínimo corpo o essencial da vida. “E o principal é isto, saber da dor, minha pequena.”
A neta não piscava, mal respirava, atenta à respiração lenta do avô, às verdades sobre as quais se encurvava uma vida excedente. “Minha menina, a gente até pode passar a vida inteira livre dela. Mas pra qualquer hora a dor chega, ah, se chega. E quando falo dela, não me refiro a uma topada do dedo no pé da cômoda, não. Digo de quando arrancam seu dedo fora. Da dor extrema. Sabe como é? Arrancar um dedo fora?” A pequena sacudia a cabeça como se entendesse do extremo. “Eu já. Sei o que é ter um dedo amputado.” Ele arrancou o sapato e mostrou o pé direito deformado pelos joanetes e pela ausência de um dedo. Ela quase pulou da cadeira, mas se ajeitou melhor no assento duro, em uma pose heroica, como que preparada a toda dor.
Por pouco, não lembrou ao velho de quando tinha passado por uma cirurgia no olho esquerdo, sem anestesia. O pai havia insistido para que a filha recebesse por uma agulha a supressão de qualquer sensibilidade física. Como resposta apenas ganhara uma risada alta da criança, que queria a dor. Mas o que é a dor de um terçol arrancado se comparada a de um dedo decepado? Corou, envergonhou-se da lembrança.
“Você não pode ver, minha menina, mas tudo é dor. A gente quer se esconder debaixo de um teto, em um amor gigante, que nem a gente sabe explicar direito o que é, dentro de uma casa limpa, que a gente vive e morre pra manter ela limpa. Disfarçado na bondade, a gente se ilude de que a linha invisível já é outro mundo.” Apontou uma linha fina de poeira aquecida por uma nesga de sol. A criança segurou firme as duas mãos nos pés da cadeira.
“Essa linha invisível que faz a gente acreditar que está protegido. Que a gente é bem diferente daquela ferida pustulenta na perna do pedinte caído na calçada. É tudo a mesma coisa. Isso é que é a vida. A carne da presa estraçalhada pelas leoas. E se você não souber disso agora, um dia vai saber, pequena menina. Então que seja eu, seu avô, que te conte antes, que te prepare. É meu dever, dever de avô.”          
A porta rangeu, a mãe tocou o cabelo curto da filha aproximando-a da linha invisível de poeira. “Lê, o vovô precisa descansar. O que é isso agora, pai? não chora.” “Sua neta precisa saber da verdade.” “Deixa de coisa, pai, vê se descansa. Dá um beijo no vovô, Lê.” A mãe deixou que a filha desse o beijo que ela nunca havia dado, um beijo guardado por tantos e tantos anos. Afastou a filha da dor, ainda que do próprio nascimento se marcasse no corpo da mãe a própria expiação. Deixaram o avô descansar, ainda que do próprio corpo não nascesse cansaço, mas uma falta dolorida e exposta.

Telefone Sem Fio em outras mãos

Este trecho foi extraído por uma leitora/escritora/poeta que admiro muito: Andrea de Barros, por isso me é muito especial. Senhoras e senhores, Telefone Sem Fio sob outros olhos:


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Entrevista para a Confraria do Vento

Saiu uma entrevista muito bacana comigo para o blog da Confraria do Vento, pela Ana Rüsche.

Leia aqui a entrevista.

Hoje é o dia do lançamento. Espero todos os cinco!

sábado, 22 de março de 2014

Convite Lançamento Telefone Sem Fio

Convido meus cinco leitores ao lançamento do livro Telefone Sem Fio. O convite, bonito e forte, abaixo

domingo, 16 de março de 2014

Nombre Doble

Meu conto Nome Duplo agora em espanhol:
https://sites.google.com/site/cuentosbrasil/brazilian-stories/nombre-doble

Prefácio do Telefone Sem Fio

Ler Ana Rüsche é matar a saudade do trema, de um tempo que não vivi, da taturana, da infância guardada em um canto distante mas que ainda dói que nem dedo mindinho, da poesia que escondemos no botão do paletó. Suas palavras, senhoras e senhores, sobre Telefone Sem Fio

Que sussurre a primeira palavra
quem nunca mentiu ao brincar de telefone sem fio

Você já soube a tua própria verdade na língua? Até que a saiba tanto e a transforme em mentira? Até que se transmude em sonho, se consuma no cigarro durante o papo com um amor daquela noite, se retorça em uma anotação à toa na folha enquanto participa de uma reunião no trabalho, até que cintile num cisco, num incômodo? Você já soube a tua verdade até não a reconhecer como própria? Quando se apresenta como uma estranha e se senta no sofá da sala com uma familiaridade espantosa?
Telefone sem fio não ajuda a responder nenhuma dessas perguntas. Bem mais atiça quem lê para que outras sejam feitas. Síndrome de sobrevivência para que se lide com aquela porção horrorizada e desconfortável de nós mesmos. Que, ao escutar a canção querida de Joni Mitchell, já não reconhece mais um beijo roubado adolescente e apenas enxerga a dúvida, numa porção inacabada do próprio rosto refletido no retrovisor do carro que não dirige. No quê nos transformamos todos os dias?
É a história de Alma. Alma Pontes. Da tenra infância à idade adulta. Do telefone cinza ao aparelho celular. Inicia-se com a pequena menina estrábica, que aprende a mentir na brincadeira de telefone sem fio e que revida da vida ao cuspir nos sapatos engraxados de um homem estranho que se intitula 'pai'. Desenrola-se com a garota que possui relacionamentos com uma semelhança suspeita, sempre em paralelo, aos relacionamentos de seu irmão Mauro. Até chegarmos à narradora do início com o rosto refletido em um retrovisor, buscando sentidos no oráculo pagão que é a internet.
Uma tentativa de explicação ao que é tão difícil de explicar, tendo como pano de fundo os principais acontecimentos brasileiros dos anos 90 a 2000. Que passa pelo plebiscito sobre a monarquia; pela moda de dançar lambada, enquanto muitos tinham as economias ceifadas pelo Plano Collor; pela morte de PC Farias; pelo pedido de impeachment de Celso Pitta; pelo racionamento de energia durante o governo de FHC; pela eleição do Lula; pelo advento da internet. A narrativa traz muito sobre o modo de viver da classe média na cidade de São Paulo: a formação escolar, os apartamentos, as festinhas, as aulas de inglês, a faculdade, os empregos de vendedora no shopping, de jornalista, de professora de história, os freelas, as incertezas do quê pensar, com quem dormir, onde morar.
Em uma prosa ligeira e deliciosa de ler, cheia de sutilezas e graças, Vera Saad Rossi coloca-nos no beco em que sempre estamos: como narrar nossas próprias verdades? As mais difíceis de serem assumidas? Em meio a dificuldades familiares, dissabores amorosos, perrengues financeiros diários?
Enfim, o que nos resta, diante de Telefone sem Fio, é somente uma única prerrogativa: o direito da dúvida. Aproveita.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Mais Telefone Sem Fio

No apartamento, avistou a sombra larga da mãe sobre os papéis jogados a sua frente, na mesa improvisada do centro da sala. Esqueceu-se por um momento do aniversário.  
— Eu sou desse tamanho aqui — apontava pro boneco de porcelana.
— Vai brincar, meu bem, a mamãe tá trabalhando. — Sim, trabalhava naquele domingo sua mãe, envolta por papéis e letras miúdas.                    
 Restava o irmão Mauro, o olhar adulto e a voz destoante. Alma preparou qualquer brincadeira pré-requentada. Mas o irmão já se disfarçava na espera da adolescência. 
— Alma, não! Que droga.
— Então vai se foder — desafiou.
Queria ser adulto, né. Que seja. Correu pra janela e começou a cuspir. Divertiu-se com a possibilidade de sua saliva tocar a cabeça de alguém ou de algum.  Distraída com seus cuspes, a pequena não percebeu o toque agudo da campainha. Mauro abriu a porta. Ante seu corpo se formou a sombra de um homem alto. A irmã conteve-se na janela, encurvada sobre seus cuspes. Mas eis que surge na sua frente um pouco de Alma na voz daquele homem:
— Não vai me dar um beijo, menina? — o homem alto se dobrou ao tamanho da menina. — Trouxe um presente pra você. Abra.
Alma se quedou estática, sem olhar pro homem ou pro presente. Sua mãe arriscou algum movimento:
— Alma, minha filha, que modos.
O homem se desculpou à mãe enquanto tentava animar a filha chacoalhando o presente. Mas a menina apenas conseguia se lembrar de quando o irmão havia lhe garantido que o pai que nunca viram iria visitá-los no aniversário dela. Tapou os ouvidos e cuspiu nos sapatos engraxados daquele homem. A mãe se indignou de pronto com o cuspe da filha:
— Alma! — olhou pro homem alto — perdão. parece bicho do mato essa aqui —voltou-se pra pequena com sua melhor bronca — Tá de castigo, já pro quarto. Antes dá tchau direito pra este homem educado que ainda traz um presente pra você.
Eu te odeio — foi o que saiu da boca da menina, um ódio sem direção, sem alvo, lento e denso como seus cuspes. 

*

Possível leitor, o ar está um pouco seco. Respiro a fumaça do caminhão, logo à frente. Respiro esta tarde poluída. Carlos dirige, não sente nada.  Que quando em quando me vem este perfume suave e esta sensação doce.  Então me esforço, mas não consigo me lembrar da alegria. Um pouco pesado, sei, como o monóxido de carbono. Carlos sorri, acredita que gosto dele. Eu penso em outros e sorrimos os dois. Carlos e suas mãos grandes. Combinamos, cada qual com suas mãos. E minha mão esquerda, a adúltera. Voltemos, mão esquerda, ao nosso segredo. Fique leitor, não se sinta invasor, dividiremos pois segredos com você. Aliás, ia me esquecendo. Você também é leitora e eu, um segredo unisex. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Telefone Sem Fio - Lançamento




Aos meus cinco leitores: os convido para o lançamento do meu romance Telefone Sem Fio, pela Editora Patuá. Será no significativo dia 23 de abril , no Hussardos Clube Literário, a partir das 19h30.

Capa: Leonardo Mathias.

Um trecho:

Uma pausa, silencioso leitor. Pois que eis um pouco de mim aqui neste posto de gasolina. Desses onde nunca nos é suficiente seu combustível, a viagem sempre é maior.  O banheiro, meu refúgio de Carlos.  Contraio as pernas, minto que estou apertada e pra lá me direciono. Não consigo erguer meus olhos, como se o piso molhado deste posto fosse a única saída. O cheiro forte de gasolina quase me derruba, somos auto-inflamáveis. Acho que estou desaprendendo a andar. Um pé depois do outro, não é assim que nos ensinam, percorrer o solo pé ante pé? Vamos lá, Alma, você consegue. A placa caída com um W apagado indica a porta do meu esconderijo. Entro de cabeça baixa. Respiro o lugar imundo de vestígios dos outros. Não há papel higiênico, apenas, no chão, seus pedaços. Também não há espelho, posso imaginar meu reflexo na água suja sob meus pés. Quantas pessoas já passaram por aqui, quantos reflexos guardam a água suja? Puxo a cordinha da descarga sem qualquer necessidade, com o único intuito de fingir um alívio que não sinto. Abandono meu pequeno jazigo, enquanto piso em uma sombra alongada. A voz transborda o corpo. Dissimulo um olhar distante, afasto meus olhos do espaço que ocupa. Em vão, a dona da sombra alongada se aproxima. “A chave do banheiro”, ordena. Faço-me surda. “Colega”, quase cospe, “a chave”, balança o corpo e a sombra, “preciso da chave”, grasna. “Não tem chave”, finalizo. “Você? Tá bem?”, ela insiste em mim. Apenas movimento a cabeça em um nãosimnãosimsim. “A mulher tá chorando!”, “a mulher” sou eu, difícil e impaciente. Não quero me lembrar de hoje, pode ser? Carlos percebe e nos socorre. “Alma?”, se esconde em mim. “Tudo bem?”. Chão, Alma, olhe pro chão, ela pode virar pedra. “Sua mulher tá chorando”, conclusão brilhante. “Sim”, ele enxuga a testa e continua “estamos passando por um momento difícil. Seu irmão.” Carlos tem uma incrível facilidade em desperdiçar seus momentos mais doídos com estranhos, na beira de estradas. Aponta pra alguma direção que não se vê e apenas diz “Enterro”.  Por fim, envolve-me sobre seu corpo, e nada mais a ser dito. Vamos os dois pro carro, indevidamente abastecidos. A sombra se alonga ainda mais pelo sol baixo e tragédia nossa. Encolho-me sobre o meu caderninho.