"Querida, você tem um coração na garganta"
Minha avó

domingo, 5 de novembro de 2017

Se o caso é chorar


Carla não parecia muito diferente da última vez que a vi, quase vinte anos antes. Estava loira, o destino de muitas na faixa dos quarenta, mas, de resto, voltava-me a memória a um tempo antigo, quando ouvíamos Tom Zé de pés descalços, com planos sobre um futuro que nunca existiu. Claro, não o sabíamos na época, chegávamos aos dezessete anos com os olhos virados ao que inventávamoscertas de que estaríamos muito ocupadas com o presente para olhar para o passado, quando ajustávamos a agulha da vitrola na quinta música do lado B do disco do Tom Zé. O caso é que nunca me esqueci, nem de Tom Zé, nem do futuro que inventáramos um dia com os pés descalços. 
Rever Carla, exatamente a mesma, com os cabelos loiros, confirmava minha inclinação a um tempo que nunca existiuSeus olhos miúdos e castanhos sombreavamo mesmo sorriso, com os dentes inferiores à mostra. Entrevia a mesma covinha de quando erguia o riso fácil, quase bonita. As olheiras estavam mais acentuadas, é verdade, o rosto, mais fino, mas continuava quase bonita, como na época do colégio. Reminiscências que me jogavam a um canto longe, quando nos imaginávamos a algum passo do impossível.
Carla era filha de libaneses. Seus pais haviam chegado ao Brasil na década de 1960Eram comerciantes, creditaram no Brasil uma vida mais confortável para os filhos que planejavam ter. Tiveram dois, que nasceram em São Paulo; Habib, o mais velho, e Carla, a caçula. Habibajudava os pais na loja de esfihas enquanto a caçula cultivava o tempo livre com Tom Zé e nossas prolongadas conversasNunca conheci o pai, apenas a mãe, que dividia as frases em português e árabe.
Era uma mulher ríspida, de cabelos pretos e cacheados, com o rosto redondo e sério. Sempre estava de preto. A filha, no avesso da mãe, vestia roupas coloridas e alisava o cabelo. Brigavam bastante, mas, no final, acertavam-se em português. Começavam a discussão em árabe, mas, quando faziam as pazes, falavam em português, a mãe, quase sem sotaque e com um meio sorriso. Eu acreditava que a sonoridade da língua era a principal responsável pelo sorriso e pela paz em casaPensava que a língua portuguesa guardava uma música suave, pronta a garantir a conciliação entre mãe e filha.
Divertia-me com as brigas e reconciliações em português. Sentava-me no sofá e aguardava minha vez de discutir com Carla qual faixa ouviríamos de Tom Zé. Ela vencia sempre. Ouvíamos repetidas vezes Se o caso é chorar deslumbradas com o refrão.   
                                   
***

Rever Carla depois de tanto tempo era estranho. Sua versão loura do futuro que agarramos desajeitadas. Reprisei mentalmente nossas conversas sob o toque agudo do sinal, na sala vazia, sobre qualquer livro que estávamos lendoBukowskiKerouac, entre tantos outros que nos permitisse alguma transgressão, comportadas que éramos quando não líamos. Ela ria quando eu procurava uma carteira para canhoto sem sucesso e me contorcia no braço direito da cadeira sobre um pedaço de papel e uma caneta. Também achava engraçado que tocasse violão sem inverter as cordas. 
"Se soubesse que nunca consegui aprender a tocar violão direito. Devia ter seguido seu conselho e invertido as cordas", o que quase disse a Carla ante seu rosto mais afilado e seu cabelo loiro. "Você está muito bonita", o que escrevi abaixo da sua foto, em meio a comentários semelhantes, além das muitas exclamações e repetidas vogais entre o "l" e o "a" de "linda".     
O que não escrevi, sempre o mais importante, lamentei em voz baixa. Não consegui nada do que imagináramos. Havia desistido de ser cantora já nos nossos últimos encontros, quando você passava por momentos difíceis naquele hospital com um bebê na incubadora. Deve ser grande hoje o Lucas. Talvez também gaste tempo com Tom Zé, amigos e planos sobre o futuro que nunca existirá. Ele era tão pequeno e você, tão cansada, aflita com o filho distanteDevo desculpas pelo meu sumiço, minha inabilidade com bebês e sofrimentoO que repeti para mim quase vinte anos depois, ainda inábil. "Nunca aprenderei", escrevi e apaguei.  
Ela parecia feliz naquela foto. Depois de tanto tempo e parecia feliz.
O futuro que nunca teríamos previsto, nosso reencontro quase vinte anos depois resumido a duas fotos e frases banais estabelecidas por uma rede social, na internet. Cliquei em "adicionar aos amigos", preparada em retomar uma amizade com muitas exclamações e alguns corações vermelho-vivo.   

***

Passados alguns dias, Carla não havia aceitado minha solicitação. 
"Quem diria te encontrar aqui. Está muito bonita", escrevi novamente abaixo da foto do perfil. Um pouco pateta, decerto, todos, um dia ou outro, encontrar-se-iam ali. Arrisquei aquela frase estúpida como última tentativa de reaproximação. Preferi não ler os outros comentários, os primeiros liiiindaa!!! sob a foto me bastaram. Segundo erro como tentativa de reaproximação, sobretudo por não ter compreendido o último comentário, "sempre estará conosco".
Ouvia mentalmente nosso refrão quando percebi o aviso sobre minha caixa de mensagens. Uma mensagem nova. Demorei a abri-la. A foto de um menino com cerca de dezessete anos reteve minha atençãoAproximei o rosto da tela. Confrontei-me, então, com um nome, minha culpa em fonte pequena no Facebook. Lucas A. 
Li e reli a mensagem por horas. O refrão de Tom Zé misturado àquela mensagem, peito e jeito sangrados para tanta dor. Carla já não existia. Um assalto na loja do irmão, a violência que arrancava Carla do meu pedido de perdão de quase vinte anos. Não soube o que responder.Difícil responder quando a resposta é música. Perguntei quando havia ocorrido o assalto e o enterro. Ato contínuo, respondeu que sua morte completava dois anos.
Voltei-me à foto do perfil de Carla, ainda sorria, ainda parecia feliz, dois anos depois de morta. Estranhei mais aquele futuro que nunca havíamos cogitado.

***

Carla não havia se casado, permanecera com o filho na casa dos pais. 
Visitei o apartamento a convite de Lucas. O lugar continuava o mesmo e o menino se encarregava de manter a mãe e nossas memórias nas covinhas suspensas pelo riso fácil.
"Você é a cara da sua mãe."
Lucas mostrou os dentes inferiores no sorriso ainda mais aberto. Seus olhos miúdos eram azuis, talvez da cor do pai. Percebi a vitrola em meio a computadoriphone e livros. Ele puxou o disco do Tom Zé. Ajeitou a agulha da vitrola na quinta faixa do lado B. Cantamos juntos em voz alta aquele refrão de quase vinte anos, com a voz embargada e os pés descalços: 

amor deixei 
sangrar meu peito
pra tanta dor 
ninguém dá jeito.
amor deixei 
sangrar meu jeito
pra tanta dor
ninguém tem peito. 

  
  

quinta-feira, 30 de março de 2017

DEZ ANOS DE PALIMPSESTO

Exatamente hoje, meu blog completa dez anos. Palimpsesto é resultado de uma inquietação minha: existe texto original? Ao longo dos dez anos, fiz algumas raspadinhas, quando leio outros autores nos autores que leio de fato.
Continuo inquieta, com mais dúvidas do que respostas. Talvez meu pensamento seja um grande palimpsesto, penso eu.
Tenho entrado aqui raramente, sinal dos tempos, postagem substituída por poucos caracteres do twitter ou figuras ininteligíveis do Facebook. Mas mantenho o carinho pelo blog. Dos sonhos que larguei por aqui, no universo cor-de-rosa, silenciosa, sem leitores, apenas eu e o teclado.
Comemoro solitária dez anos inacabados sem champanhe, mas com alguma ilusão.
Ainda vendo futuro e uma gama completa de felicidade.





P.S.: Por coincidência, uma das minhas escritoras favoritas, Elvira Vigna, publicou recentemente um livro chamado Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas, em que a estrutura da narrativa se assemelha a um palimpsesto, pelas histórias de João (não sei por quê, me lembrou o Apocalipse, daquele João que viu e ouviu, daquela prostitua devorada pelos dez reis)